Termas de S. Vicente - O local e seu contexto Imprimir
    Recuemos ao seculo VI da era cristã. Estamos na época romanizante. O extenso território do baixo concelho de Penafiel era conhecido como "Civitas Anegia". É clara a ligação dessa designação ao topónimo Eja. Este é o nome de uma aldeia próxima de Entre-os-Rios, na qual pode observar-se um castro implantado num esporão avançado da colina que encima a confluência dos rios Douro e Tâmega.
   O castro referido, de planta ovalada, e rodeado por muralhas que criam as plataformas em que as casas foram sendo construídas. Terá sido
habitado desde o século I até finais do Império Romano.
    O "fórum" desta região de Anégia situava-se na vizinha freguesia deOldrões, no lugar ainda hoje chamado das Sete Pedras. 
    Era aqui que vicejava o carvalho-foral, a cuja sombra funcionava o tribunal. De notar que muito próximo fica o Outeiro da Forca. 
    Os carvalhos, azinheiras e sobreiros, que sao árvores de vida longa, assinalavam muitas vezes os mais diversos monumentos como dólmenes, tumulos, mamoas, menires etc. 
    A nascente das Sete-Pedras e a 324 metros de altitude situa-se o Castro de Penha Fidelis, a que os locais chamam "0 Castelo". Defendido por várias linhas de muralhas, parece ter sido um local sagrado, pré-histórico, da era do bronze. Uma figura de guerreiro insculpida na penha, um petróglifo, aparece no centro de penedos diversos onde as fossetes abundam. 
    O penedo fronteiro ao pétroglifo dá ideia de ter servido de ara para sacrifícios em honra do guerreiro divinizado, sepultado no local. Sob o castro
há vestigios de uma galeria por explorar. Que mistérios guardará ela?
    Ainda no âmbito territorial de Oldrões e em parte da freguesia de Galegos situa-se a Citânia do Mózinho ou Cidade Morta. 
    Trata-se de urn castro, porventura dos mais extensos da Península Ibérica, implantado num cabeço granítico a 408 metros de altitude e ocupando uma  área de cerca de 20 hectáres, sobranceiro ao Vale de Anégia, por onde corre a Ribeira de Camba. A paisagem que se desfruta lá do cimo é extraordinariamente deslumbrante.
    O povoado, de forma elíptica mostra ter as suas origens na Idade do Ferro e a respectiva ocupação deve ter-se prolongado até ao Baixo Império.
    Defendido por três linhas de muralhas é dentro delas que se encontram habitações de dois pianos, circular e rectangular. Várias ruas se entrecruzam, convergindo para uma mais larga que as demais, até à entrada da muralha.
    Numeroso tem sido o espólio recolhido, bem demonstrativo da importância da povoação, cujo nome se desconhece, e da grande quantidade de povos que ali viveram.
    Este sítio arqueológico esta dotado de um notável complexo de apoio ao visitante, constituido por local para estacionamento de veiculos, parque de lazer, bar, sala de estar, sanitários, casa do guarda e casa-abrigo.
    A major parte do espolio encontrado neste castro encontra-se no Museu Municipal de Penafiel.
    0 acesso ao local mais aconselhável para quem vai das Termas de S. Vicente é seguir pela estrada 106 em direção a Penafiel e, chegando ao entroncamento da Ribeira virar no sentido de Paço de Sousa. Alguns metros a frente virar a esquerda e seguir as indicações que as placas à margem da estrada vao fornecendo.
    Toda esta regiao sofreu acentuada influencia da ocupação romana. Aqui a rota do Romanico passa obrigatoriamente pelos monumentos atrás referidos e também pelas igrejas de Santa Maria e de São Miguel de Eja.
   
    Esta, construída no sopé do citado castro de Anégia, ja existia em 1047.
    De salientar o pórtico de arco quebrado, sem decoração, uma pequena torre sineira e, no interior, o arco triunfal em relevo fitomórfico.
    Monumento nacional a merecer igualmente atenta visita e o Mosteiro beneditino de Paço de Sousa, situado na vila com o mesmo nome, fundado no ano de 956, com o patrocínio da familia de Egas Moniz, cujo tumulo pode ser admirado no interior do templo.
    De regresso e próximo da estrada, na freguesia de Irivo, encontra-se um monumento funerário medieval, muito bem conservado e conhecido como Memorial da Ermida, designação que o povo adulterou "Marmoiral".
   
    Muito próxima da ja citada confluência de estradas da Ribeira, na freguesia de Rans, situa-se a Honra de Barbosa, construção senhorial emergente dos campos que a circundam, da época medieval, ostentando a sua torre-residência, pelourinho, forca, quartel-prisão, fontes graníticas e capela.
   
    Deste local é curta a distância ate Boelhe, onde, ao lado da igreja paroquial, vale a pena visitar a pequenina igreja de S. Gens, exemplar belíssimo do românico rural, datada provavelmente de finais do seculo XII. De traçado simples, corn nave e cabeceira rectangulares e expressiva decoração, conserva o primitivo campanario românico.
    O portal e de três arquivoltas, envolvido por uma cinta de quadrifólios. As colunas têm ábacos e capitéis insculturados, sendo as quatro laterais de fustes cilindricos e as duas centrais de fustes poligonais. O tímpano é liso e a cruz da frontaria é seiscentista. À direita do portal, no exterior, existe uma pia de água benta poligonal de granito.
    Atente-se também na cantaria notável e no simbolismo dos capitéis, cachorros e aduelas. A cornija, decorada na face sui corn boleados e na face norte corn estrelas de cinco pontas é de excelente efeito.
    Regressando de Boelhe em direcção as Termas de S. Vicente, fica-lhe em caminho a freguesia de Cabeça-Santa, cuja igreja matriz merece 
uma visita.
    A igreja de Cabeça Santa e urn templo românico construído na transição do sec. XII para o sec. XIII é, segundo a tradição, teria sido fundado pela rainha Dona Mafalda, mulher de D. Afonso Henriques. De traça muito simples, corn nave única e cabeceira rectangular, o portal é embelezado pela ornamentaçao dos capitéis. Atente-se ainda no renque de modilhões que corre exteriormente.
    Neste templo se Quardava um crãnio venerado pela população e que deu aso a mudança do nome da freguesia, de Gandra para Cabeça Santa.
    No adro encontram-se algumas rudes sepulturas antropomórficas  cavadas no granito, de época incerta.
   
    Concluido este périplo e altura de regressar as Termas de S. Vicente, motor do desenvolvimento comercial e turístico da freguesia de Pinheiro, em que estao inseridas. É um recanto maravilhoso, porventura o mais convidativo desta deslumbrante região. Vinhas, campos de cereal, pinheirais, gente afável e simples compõem uma paisagem geografica e humana única.
    Esta freguesia teria em épocas remotas feito parte de um aglomerado populacional chamado "Villa Banius".
    Este povoado ter-se-ia erigido em paróquia possivelmente no século X (ha noticia da mesma em 1047). A sua igreja, de exíguas dimensções, teria vindo substituir um fano ou templo pagão, dedicado a uma divindade romana protectora das doenças da pele. Com a lenta extinção da paróquia, o pequeno templo veio a ter por orago o martir S. Vicente, soldado romano convertido ao cristianismo.
    S. Vicente era invocado pelos cristãos como auxilio, quando surgiam pestes, em que as doenças da pele, como a lepra, eram frequentes. Para essas doenças os romanos utilizavam as águas termais desta regio, por eles denominadas " dádiva dos deuses ".
    Apreciadores como eram dos prazeres da existência viam nos banhos, nao só um cuidado higiénico e uma terapêutica, mas também um motivo de descontracção e de descanso.
    Isto mesmo e atestado pelas termas luso-romanas postas a descoberto em 1903, a que os locais chamam "O Balneario".
   
    Nas ruínas do mesmo são ainda perceptíveis as dependências várias, os aquedutos, as banheiras (espécie de piscinas com um metro de profundidade e bancada em redor). Observam-se restos da canalização, uma estufa e uma fornalha (a palavra "Termas", de origem grega, significa que a água é aquecida artificialmente).
    As referidas dependências, em número de onze, são separadas por paredes, mas formam um corpo único. Notam-se duas salas com saídas independentes e sem comunicação entre si.
    A sua estrutura é de pedra (a região é rica em granito e xisto), embora algumas das suas partes possam ter sido de madeira.
   
    No local foram encontrados e recolhidos no Museu Municipal de Penafiel diversos vestigios do passado: fragmentos de cerâmica, a parte superior de uma ânfora, restos de vasos, moedas e dais pequenos bronzes. A este espólio se juntaram algumas Iucernas e vasos achados nas ruínas de uma necrópole, a nascente e a pequena distancia da zona termal.
    No final do seculo XX as Termas de S. Vicente foram desactivadas, com gravosas consequências para a economia da região, nomeadamente a indústria hoteleira e a pequeno comércio.
    Actualmente e graças à visão, audácia e capacidade empreendedora do seu actual proprietário, as Termas de S. Vicente tern vindo a recuperar o brilhantismo do passado e preparam-se para serem únicas no pais na oferta da mais sofisticada e evoluída técnica da moderna hidroterapia.
    Assim as afecções crónicas das vias respiratórias e do aparelho locomotor, as reumatismos, as perturbações circulatórias, a hipertensão e dermatites encontram de novo nestas águas - as mais alcalinas das águas sulfúreas de Portugal -a alívio e a cura ansiados.
    A norte da zona termal há o lugar de Outeiro Divino, que a povo adulterou para Outeiro de Vinho. A verdade é que este topónimo aparece em documentos do século IX como forma sincopada de Outeiro de Dino.
    No local existiu uma outra pequena povoação, cujo nome aponta para origem visigótica -Zeidoneses. Ha referencias dela em 1102.
    Rapidamente este povoado se esfumou no tempo, dele restando a penas ruínas dos alicerces do respectivo templo.
    Villa Banius e Zeidoneses deram origem à actual freguesia de S. Vicente do Pinheiro, cuja igreja matriz foi construida no terreno onde se localizava a cemitério medieval. Uma legenda sobre a porta principal refere a restauração do templo em 1825.
    Em 1942, sendo pároco Adriano de Sousa Vieira, foi demolida a antiga residência paroquial (acto classificado coma crime pelo arqueólogo Elisio Ferreira de Sousa).
    No terreno ocupado pela residência demolida apareceram então algumas sepulturas antropomórficas e, nas paredes da casa e nos muros do quinteiro, encontraram-se pedras tumulares corn frases em latim e ornatos e algumas estrelas corn cruzes e urn pentagrama ( sino-saimão ).
    Na década de 50, aquando do arranjo do espaço exterior da actual residência e do adro apareceram muitas outras sepulturas. 
 

 
OrigemXXI | 2012 | Todos os direitos reservados.